Quando o Globoplay anunciou em 21 de abril de 2026 que Susana Vieira seria A Dona da Herança no reality Herança em Jogo, a reação foi mista. Parte do público torceu o nariz — Susana Vieira em reality? Outra parte sorriu — claro que faz sentido. Aos 82 anos, a atriz que está há 55 deles na Globo acabou de aceitar um papel que ela nunca interpretou antes, num formato em que ela nunca esteve, num programa cujo alvo é uma audiência que cresceu vendo seus memes no TikTok.
A escalação parece improvável até a gente olhar com calma. Quando olha, faz sentido — talvez tanto sentido quanto qualquer outro casting da Globo nos últimos anos. Aqui vai por quê.
A trajetória — 55 anos de uma carreira só
Susana Vieira chegou à Globo em 1971. Em 2026, ela completa 55 anos de casa, segundo balanço dela própria — ou seja, esteve presente em 55 dos 60 anos que a emissora terá em 2025. É das poucas atrizes em atividade contínua que se pode realmente associar à história integral da telenovela brasileira moderna.
Um recorte minimamente honesto da carreira passa por:
- Anjo Mau (1976) — Nice, a babá manipuladora. A construção do personagem virou modelo da figura da “vilã doce e venenosa” em novela brasileira
- Cabocla (1979) — Belinha, papel de protagonista no horário das seis
- Por Amor (1997) — Branca, mãe sofrida em uma das novelas mais consumidas dos anos 1990
- Senhora do Destino (2004) — Maria do Carmo, provavelmente o papel mais marcante da carreira dela. A novela, de Aguinaldo Silva, tem uma das finais mais assistidas da história da TV brasileira e Maria do Carmo, mãe que persegue por décadas a recuperação de uma filha sequestrada, é personagem-totem na memória afetiva do país
- Salve Jorge (2012-2013), A Lei do Amor (2016), Éramos Seis (2019-2020), entre outros papéis mais recentes
- Três Graças, novela em produção para 2026 — Susana vem sendo cotada para o elenco, segundo apuração da Mixvale, ainda sem confirmação oficial da Globo
Carreira longa não é, em si, garantia de coisa nenhuma. Mas a de Susana tem uma característica importante: ela atravessou cinco décadas distintas da telenovela brasileira sem perder densidade. Não virou figura nostálgica. Continuou trabalhando.
O capital simbólico — por que Susana virou meme
A virada de fase mais notável da Susana, contudo, é mais recente. Nos últimos anos, ela virou rainha dos memes — fenômeno documentado pelo O Tempo, pelo Portal Leo Dias e por matérias dedicadas no Jornal de Brasília. Trechos de entrevistas dela, montados com músicas pop ou aplicados em contextos cotidianos, viralizam no TikTok e no Instagram com regularidade rara para uma atriz da geração dela.
As frases que viraram bordão são parte do diagnóstico:
- “Meu cabelo seis mil reais” — dita em uma entrevista descontraída, virou símbolo da autenticidade dela
- “Não tenho paciência” — adotada por jovens em vídeos humorísticos
- “Ninguém tem. E ninguém tem o meu carisma” — declaração no Desfile das Campeãs do Carnaval de 2025 que rendeu nova rodada de viralização, conforme apuração do BNews
O que o fenômeno indica é simples: Susana Vieira é uma das poucas atrizes da geração dela que tem público cruzado. Os mesmos espectadores que assistiram Senhora do Destino há vinte anos têm netos que conhecem Susana só pelos memes — e os dois grupos sabem do que estão falando quando ela aparece. É um ativo raro num mercado em que a maioria das celebridades pertence ou ao público adulto, ou ao público jovem, mas dificilmente aos dois.
A própria atriz reconhece o fenômeno e, em entrevista ao Portal Leo Dias, declarou que “ama ser famosa” e que conquistou público novo ao virar meme. Não é coincidência que a Globo, em 2025, tenha gravado um piloto de talk show com ela e, em 2026, a tenha escalado para o reality.
A atualidade — atriz em circulação
Em 2026, Susana segue em atividade plena: faz a peça teatral Lady, em cartaz após temporada bem-sucedida no Rio; estreou em cinema com o filme Coisa de Novela em 2025; gravou o piloto de talk show para a Globo; está cotada para a próxima novela. E declarou, em entrevista para a Mixvale, que pretende trabalhar até os 100 anos.
A frase, à primeira vista, soa hipérbole. Olhando de perto, não soa: ela atravessou os 80 ainda em escala de produção e ainda como personagem central nos projetos em que entra. Herança em Jogo não é exceção — é continuidade.
A saúde — contexto público e respeitado
Vale registrar com franqueza um aspecto que ela mesma escolheu tornar público. Em 2015, em um exame pré-operatório de retirada de varizes, Susana foi diagnosticada com leucemia linfocítica crônica (LLC), doença que ela conviveu com discrição até maio de 2024, quando concedeu entrevista ao Fantástico contando o histórico. Em fevereiro do mesmo ano, ela já havia falado em entrevista exclusiva à Revista Abrale (Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia) sobre o tratamento. Convive também com anemia hemolítica autoimune — segundo apuração do Público (Portugal) e do Metrópoles, ambas as condições estão em remissão.
A própria atriz resumiu, no Fantástico, a postura com que encara o quadro: “essa doença — parece que foi Deus — me deixou em paz”. Tem mantido rotina ativa de trabalho, declara fazer os exercícios prescritos pelos médicos e segue circulação plena entre teatro, cinema e TV. Herança em Jogo é parte dessa continuidade — projeto que ela aceitou em condições de produção que respeitam o ritmo dela.
Por que Susana cai como luva como Dona da Herança
O papel de A Dona da Herança, no formato The Inheritance, é o de uma figura central que comanda a casa de longe e desafia os participantes. No formato britânico, a benfeitora morre logo no início e fica como fantasma; no Brasil, será figura presente — Susana interage com os participantes, dá ordens, provoca, observa.
A escalação faz sentido em três níveis:
1. Repertório de matriarca em novela. Susana já interpretou várias matriarcas autoritárias, enigmáticas, com voz autoral. O registro do papel não é estranho a ela. Quando o reality precisar dela em cena de impacto — uma reviravolta, uma decisão moral, uma frase que vira clipe —, ela tem o tipo de presença cênica que a maioria dos apresentadores de TV não tem
2. Capital simbólico cruzado. O reality estreia no Globoplay, plataforma que precisa atrair tanto o público fiel da Globo como o público jovem que migrou pro streaming. Susana entrega os dois. Para o público que cresceu vendo Senhora do Destino, ela é referência afetiva. Para o público que conheceu Susana via TikTok, ela é figura cult contemporânea
3. Imprevisibilidade controlada. Reality bom é reality em que algo pode dar errado e ainda ser interessante. Susana é personalidade pública com histórico de sair do roteiro — ela responde, ela provoca, ela tem gosto pelo improviso. Em formato em que a benfeitora desafia os participantes, esse tipo de imprevisibilidade vira material editorial. Não é defeito; é diferencial
O que esperar — sem prometer demais
Susana nunca esteve antes em formato reality. Não há base direta para prever como ela se sairá em rotina de gravação longa, em interação com participantes não-atores, em improviso dentro de um jogo. Esse é o limite da previsão — e ele importa.
O que dá pra antecipar é o esqueleto: uma matriarca enigmática conduzindo um jogo psicológico. Susana tem o repertório, o público, o carisma — e a Globo, ao escalá-la, está aproveitando exatamente esse perfil. Se a versão brasileira de The Inheritance tiver chance de ir além da inglesa, boa parte vai depender da força de cena dela.
Aos 82 anos — e ainda com planos de chegar aos 100 trabalhando —, Susana Vieira não está fazendo um capricho de fim de carreira. Está, conforme padrão da própria, abrindo mais um território. Herança em Jogo é a aposta da Globo num formato novo, e Susana é a aposta certa para esse papel específico.
E é isso — não nostalgia, não currículo — que justifica a escalação.
Para entender o reality em si, leia Herança em Jogo: tudo sobre o reality de Susana Vieira e Rodrigo Faro. Para o casting em dupla, Faro e Susana: a dupla improvável do Globoplay.





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