Antes de virar Herança em Jogo no Globoplay, o reality teve outro nome, outro elenco e outro destino. Estreou no Channel 4 do Reino Unido em 31 de agosto de 2025, com Elizabeth Hurley como a “Falecida” e Robert “Judge” Rinder como executor do testamento. O formato é uma criação do Studio Lambert, produtora britânica responsável por dois dos maiores realitys do mundo na última década — The Traitors e Squid Game: The Challenge —, e o Brasil é o primeiro país a adaptar o programa, com gravações marcadas para maio de 2026.
A pergunta que interessa para quem vai assistir à versão brasileira é simples: o que é o jogo, e o que esperar dele?
A premissa
A premissa é deliberadamente macabra, no melhor estilo do humor britânico: uma benfeitora glamourosa morre e deixa fortuna a ser disputada por 13 desconhecidos, reunidos em uma mansão. O cenário do programa britânico é uma “stately home” — casa senhorial de campo — na fronteira entre os condados de Hampshire e Dorset, no sul da Inglaterra. Os 13 candidatos chegam sem se conhecer e passam a viver juntos, comendo, dormindo e jogando.
Elizabeth Hurley, no formato UK, aparece como a benfeitora já falecida. Suas ordens — as cláusulas do testamento — são executadas por Robert Rinder, conhecido na TV britânica como “Judge Rinder” por seu programa de tribunal. Rinder lê os requerimentos, vigia o cumprimento e administra cada disputa.
No Brasil, a estrutura muda: Susana Vieira interpretará A Dona da Herança como figura presente, não falecida, e Rodrigo Faro será o testamenteiro (a função de executor que Rinder cumpre). É uma adaptação significativa: a versão brasileira deve dar mais espaço de cena à benfeitora, transformando-a em personagem ativa.
Como funciona o jogo
A mecânica central é o que diferencia The Inheritance dos confinamentos tradicionais:
- A cada missão ao longo da temporada, é liberada uma parte da fortuna deixada pela benfeitora
- A missão é coletiva — todos os participantes precisam contribuir para destravar o dinheiro
- Mas, ao final de cada missão, só um participante leva o valor liberado
- Para reivindicar o prêmio, ele precisa convencer os outros de que merece — argumentando, negociando, prometendo
- Os demais podem contestar a reivindicação, e a disputa vira jogo de retórica
O efeito acumulado é um reality em que a prova física é secundária — as missões testam diligência mais que vigor — e o jogo de pessoas é o que realmente decide. Ao longo dos 12 episódios da temporada UK, os participantes acumulam dinheiro de forma desigual; alguns chegam ao final com bancada considerável, outros sem nada.
A final, no formato britânico, é uma votação entre os finalistas: o vencedor é eleito pelos próprios concorrentes — premia o “Prime Beneficiary”, o herdeiro principal — e leva uma fortuna definida pela produção. Cam, um andaimeiro de Yorkshire de 28 anos, foi o vencedor da primeira temporada UK e levou £100 mil. Como um aceno final ao formato, dividiu a verba com quatro outros finalistas (£20 mil cada), em adição ao que cada um já tinha acumulado nas missões.
O Studio Lambert e o pedigree do formato
O Studio Lambert não é uma produtora qualquer. Fundada por Stephen Lambert — também criador de Wife Swap e Undercover Boss —, o estúdio é o nome por trás de dois dos maiores realitys da última década:
- The Traitors, produzido para a BBC (versão britânica) e Peacock (versão americana). A edição americana ganhou o Emmy de melhor reality competition em 2024 e foi a maior estreia não-roteirizada da história do Peacock
- Squid Game: The Challenge, na Netflix — adaptação não-roteirizada do drama coreano que reuniu 456 participantes disputando US$ 4,56 milhões, o maior prêmio em dinheiro da história da TV
- The Circle, também da Netflix, formato em que os jogadores se comunicam só por uma rede social falsa
Stephen Lambert tem dito em entrevistas que a estratégia do estúdio é “tentar quebrar as convenções do reality TV”, apostando em produções que ele chama de “premium unscripted” — orçamentos altos, estética de série de prestígio, casting cuidadoso. O Studio Lambert é, hoje, a empresa de referência mundial no nicho de reality de estratégia.
The Inheritance é o formato seguinte dessa filosofia: alta produção, pouco grito, jogo psicológico, prêmio significativo.
Recepção no Reino Unido — e o alerta para o Brasil
Aqui é onde a pauta editorial precisa ser honesta. Apesar do pedigree, The Inheritance não foi um fenômeno no Reino Unido.
A estreia, em 31 de agosto de 2025, atraiu cerca de 540 mil espectadores — uma das estreias de reality mais baixas do Channel 4, segundo apuração do NationalWorld. As avaliações de público também foram mornas: a média no IMDb ficou em torno de 5,1 (em uma escala de 10), e parte da crítica comparou o formato negativamente a The Traitors, chamando-o de “cópia desbotada” do formato premiado da BBC.
Há informações, ainda segundo reportagens britânicas, de que o programa pode não ganhar uma segunda temporada no Reino Unido, embora o Channel 4 não tenha confirmado oficialmente o cancelamento.
Isso não significa que a versão brasileira está condenada. Adaptações têm dinâmica própria, e há precedentes claros de formatos que decepcionaram em um país e brilharam em outro — Big Brother original holandês foi sucesso modesto, mas o BBB virou patrimônio nacional brasileiro; Pesadelo na Cozinha é fenômeno mais sólido com Erick Jacquin no Brasil do que na temporada italiana original. O casting com Faro e Susana Vieira é distinto, o público brasileiro é distinto, e a calibragem da produção (Formata + Globoplay) é distinta.
Mas o alerta editorial é importante: o formato é interessante, mas não é à prova de falhas. O que o Brasil entregar vai depender de roteiro, casting de participantes, edição e ritmo — variáveis que a Globo controla, mas que ainda não estão dadas.
O que muda na versão brasileira (até agora)
Pela apuração disponível, a versão brasileira muda pelo menos três pontos do formato UK:
- A Dona da Herança é viva, não falecida. Susana Vieira aparece em cena, interage com participantes, dá ordens — não é uma figura ausente como Hurley no UK. Isso pode dar mais peso narrativo à matriarca e aproximar o registro de novela
- O testamenteiro tem perfil diferente. Rodrigo Faro tem registro de apresentador de variedades (Hoje em Dia, programa de domingo na Record). Robert Rinder, ao contrário, vinha de um programa de tribunal e tinha registro mais sóbrio. A escolha brasileira sugere um testamenteiro mais carismático, menos juiz
- A produção é da Formata (executiva no Brasil), licenciando o formato pela All3Media International — distribuidora oficial do Studio Lambert
Detalhes como número de episódios, valor do prêmio, regulamento exato e elenco ainda não foram divulgados. O Geek Realitys segue acompanhando — o explicador-âncora de Herança em Jogo está aqui, e os próximos artigos do lote vão tratar da aposta de mercado da Globo no nicho de mind game e do casting incomum da dupla Faro × Susana Vieira.





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